É estranho como sao as coisas dessa vida que queiramos ou nao tem um fim. Para uns esse fim eh vem rapido e para outros muito tempo e acontecimentos se passam antes desse fim sempre tao indesejado. A Christina disse outro dia uma das mais sabias frases que ja ouvi. “Quando uma pessoa de idade se vai, uma grande biblioteca se acaba”, No caso do meu querido vo Orlando, essa frase nao poderia ser mais apropriada. A cultura e inteligencia dele ultrapassava os limites de ser normal. A cultura classica, adquirida por ele de uma forma voraz e nao convencional, surpreendia todos que os ouvia com atencao e espanto, provavelmente pensando – “Como ele sabe disso? Onde ele aprendeu?” Ele aprendeu nos livros, que ele devorava com uma voracidade que so uma mente faminta e curiosa como a dele poderia absorver. E anos depois de te devorado esse ou aquele livro, ele voltava e relia tudo, de cabo a rabo mas nao aceitava tudo que lia como fato. Ele sempre usava sua combativa inteligencia para concordar ou discordar com o que lia, e quando
discordava nao o fazia em silencio, sempre fez questao de escrever cartas aos autores que lia deixando clara sua posicao a respeito do que lia. Sorte do Sartre, Socrates etc de ja estarem mortos, nao precisando assim ler as cartas as vezes mal criadas vindas do Orlandao. Seu nome era familiar na secao de “Cartas ao Leitor’ da Folha de Sao Paulo, folha que ele lia de cabo a rabo. Nao sei se lia a parte de esportes todo dia, sei que quando lia sobre futebol falava: “Sao 22 milionarios correndo atras de uma bola e nos aqui assistindo”.
Sua inteligencia e visao estava muito a frente de seu tempo, mas seu idolo era Napoleao, desenvolveu formulas de tintas, criou transformadores, tudo da cabeca dele. Nao pediu ajuda pra ninguem e tampoco copiou tal formulas ou projetos. Fez acontecer, foi atras, criou uma empresa chamada “Seculo 21″ nao primeira metade do seculo XX, onde ninguem nunca tinha pensado nesse tipo de nome tecnologico. Que moderno era esse homem! Caiu e levantou e caiu de novo e levantou novamente. Fez dinheiro e perdeu dinheiro tambem, pelo o que nos, os netos, ouviamos perdeu tudo no jogo, no vicio, na vida. Talvez pq nao conseguia ficar parado, talvez porque a vida pacata de pai de familia nao satisfazia sua cabeca que nao tinha parada. Depois de tudo isso ainda entrou na Faculdade de Direito, se formou advogado e virou o Dr. Orlando que ajudou muita gente e muita vezes fazia tudo de graca.
Acho que no fundo nao se importava muito por dinheiro e tambem nao gostava de pessoas esnobes, mas tambem nao esbanjava simpatia, Uma historia contada por um empresario da cidade, que se dizia admirador do meu avo, deixa claro como o Dr. Orlando nao gostava de gente esnobe: Certa vez um grande amigo dele, que da mesma forma que meu avo era um bem sucedido industrial da cidade, arrumou uma secretaria e fazia questao que ela anunciasse qualquer visitante que viesse a lhe visitar. mas todas as vezes que meu avo chegava na anti-sala desse empresario, a secretaria entrava em panico, pq o Orlando simplesmente ignorava os pedidos dela pra que ele esperasse pra ser anunciado. E meu avo exigia toda vez para que o bem sucedido empresario despedisse a ajudante por se tratar de uma coisa esnobe e desnecessaria. Essa eh uma das centenas de historias que as pessoas me contavam sobre meu avo. Sao tantas que seria dificil eu colocar nessa pagina.
E como nao lembrar do Fuscao 1971 do Dr. Orlando, quantas coisas aquele carro nao viu e passou. Nao conheci meu avo sem ter outro carro. Lembro que ele ia nos buscar em casa e o fusca estava sempre cheio de netos, que ele sempre fez questao de ensinar a dirigir – se nao me engano quase todos os netos dele aprenderam a dirigir no fusca do Vo Orlando. Que alegria, quem queria vida melhor, com os netos no carro ele nos comprava sorvete no romanelli. As vezes passavamos na casa do seu adorado amigo Totinha, o qual o fez cortar os cabos do radio do fusca. Toda vez que meu avo pegava o Totinha, ele entrava no carro e ligava o radio, atrapalhando a conversa que viria pela frente. Mas como meu avo nao pensava duas vezes, ele simplesmente cortou os fios do radio original do fusca, desse modo o Totinha nao iria mais atrapalhar as conversas ligando o radio do fusca. Da mesma forma que quando o portao da casa deles prendeu o dedo de um dos netos, ele simplesmente tirou o portao da casa. Quando ia ao forum, estacionava seu tao conhecido carro, em qualquer lugar e deixava uma nota. ‘Amigo, se precisar mover o carro, as chaves estao no porta-luvas”. Parece ingenuo mas eu acho que de ingenuo ele nao tinha nada, ou quase nada. Ele sabia que todos sabiam que aquele era o carro dele e ninguem iria mexer com isso. Ele me ligava e pedia que eu viesse na casa dele pra levar a bolinha ou a Cristina pra passear, nao passear na rua, mas pra passear de fusca e comer halls.
Todos os dias nos alertava, ao contrario de que todos normalmente faria, “cuidado com a policia”. Disso e outras muitas coisas nao me esquecerei. Aprendi muito com meu Avo, o que fazer e o que nao fazer.
Descanse em paz. Sua inteligengia foi um marco na historia da nossa vida.